Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto

  António Vieira Pacheco

16 de outubro de 2026
DIREITOS RESERVADOS — EMM

Leitura estimada: 3 min

Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto.
Direitos Reservados.

Caro Pedro Duarte,

Reli as notícias sobre o que aconteceu na Praça D. João I na madrugada do dia 15. Li as declarações da PSP, as suas palavras, as posições do movimento. Li sobre pessoas feridas, um agente e uma manifestante transportados para o hospital, tendas retiradas, acusações de resistência e de força desproporcional. Escutei versões diferentes de uma madrugada que terminou em confronto.

Não estava lá, não conheço todos os factos e não lhe escrevo para distribuir culpas. Sou pela lei e reconheço o papel indispensável da polícia numa sociedade democrática. Não defendo que a desobediência deva ficar sem consequências, nem que a autoridade tenha de ceder perante qualquer contestação.

Mas a aplicação da lei não dispensa o discernimento de quem tem de decidir como agir.

A política começa precisamente aí: quando, perante uma situação difícil, é necessário escolher entre as soluções possíveis e avaliar não apenas a sua legalidade, mas também as suas consequências.

O protesto pode incomodar, perturbar a circulação e ultrapassar limites. Ainda assim, por detrás de quem ocupa uma praça, há pessoas, razões e circunstâncias que não desaparecem perante uma ordem de desmobilização. O desespero não justifica tudo, mas merece ser compreendido antes de ser tratado exclusivamente como um problema de ordem pública.

Pedro Duarte, não lhe solicito condescendência nem cedências automáticas. Solicito-lhe que olhe para o que aconteceu, sem se limitar a verificar se os procedimentos foram cumpridos. Importa também perceber se houve margem para o diálogo, se as alternativas foram ponderadas e se a intervenção adotada foi a mais adequada à situação.

Fazer estas perguntas não significa desautorizar a polícia. Significa reconhecer que a responsabilidade política não termina quando a autoridade intervém; também exige avaliar o que poderia ter sido feito de outra maneira.

Mas há outra questão que gostaria de lhe colocar, e que nasce de quem vive e conhece o Porto.

Quando vou ao centro da cidade, encontro ruas cheias de turistas, ouço inglês a cada passo e, por vezes, tenho a sensação de que a voz dos próprios portuenses tornou-se quase inaudível no meio de tanta transformação. Não tenho nada contra os estrangeiros que visitam a cidade, nem contra quem escolhe o Porto para viver. A cidade é de quem a habita, mas também sabe acolher quem chega.

E o problema surge quando, no meio de tanta atenção dirigida a quem vem de fora, deixamos de perceber quem cá está, quem sempre cá esteve e quem sente que a cidade onde nasceu já não lhe pertence da mesma maneira.

O que faz para dar voz aos portuenses?

O que faz para ouvir os moradores que enfrentam rendas cada vez mais difíceis de suportar, os comerciantes que tentam manter a identidade das suas ruas e as pessoas que não querem ver o Porto transformado apenas num destino turístico? Que espaço têm as suas preocupações nas decisões políticas? E como se garante que o desenvolvimento da cidade não acontece à custa de quem lhe dá vida todos os dias?

Não se trata de escolher entre portuenses e estrangeiros. Trata-se de não esquecer os primeiros enquanto se acolhem os segundos. Uma cidade não pode ser apenas o que mostra a quem a visita; tem de continuar a ser um lugar onde os seus habitantes conseguem viver, trabalhar, criar raízes e sentir que pertencem.

Talvez estas questões pareçam diferentes do que aconteceu na Praça D. João I. Para mim, estão ligadas por uma preocupação comum: como o poder escuta as pessoas, sobretudo quando as suas inquietações deixam de caber nas respostas habituais.

Não sei se o confronto daquela madrugada podia ter sido evitado. Seria precipitado afirmá-lo sem conhecer todos os factos. Mas seria igualmente precipitado concluir que não existia outra possibilidade.

Por isso, deixo-lhe duas perguntas: era possível ter terminado aquela madrugada de outra maneira? E faz o suficiente para que os portuenses continuem a sentir que esta cidade também é deles?

O Porto não pode ser pensado apenas para quem o visita, mas também para quem o construiu, nele viveu e continua a trabalhar. Uma cidade não se mede apenas pelo número de turistas que recebe, mas também pela forma como trata as pessoas que dela fazem parte.

Escreve-lhe alguém que viveu quase três décadas no Porto, que hoje reside a escassos dez metros do limite da cidade e que continua a trabalhar diariamente no interior dela. Dez metros que, por força de uma fronteira administrativa, parecem suficientes para fazer a diferença entre ter ou não ter acesso a um passe gratuito.

É também por estas pequenas grandes contradições que se avalia a atenção que a política dedica à vida concreta das pessoas. Quem trabalha no Porto contribui para a sua economia e participa diariamente da sua vida; não perde a relação com a cidade por morar do outro lado de uma linha no mapa.

Pedro Duarte, o Porto não é apenas de quem cá nasceu, de quem cá vive ou de quem o visita. É também de quem o mantém vivo todos os dias. A questão é saber se as decisões políticas reconhecem essa realidade — e se estão verdadeiramente ao serviço das pessoas.

Com os melhores cumprimentos, 


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