Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto
António Vieira Pacheco

Direitos Reservados.
Caro Pedro Duarte,
Reli as notícias sobre o que
aconteceu na Praça D. João I na madrugada do dia 15. Li as declarações da PSP,
as suas palavras, as posições do movimento. Li sobre pessoas feridas, um agente
e uma manifestante transportados para o hospital, tendas retiradas, acusações
de resistência e de força desproporcional. Escutei versões diferentes de uma
madrugada que terminou em confronto.
Não estava lá, não conheço
todos os factos e não lhe escrevo para distribuir culpas. Sou pela lei e
reconheço o papel indispensável da polícia numa sociedade democrática. Não
defendo que a desobediência deva ficar sem consequências, nem que a autoridade tenha
de ceder perante qualquer contestação.
Mas a aplicação da lei não
dispensa o discernimento de quem tem de decidir como agir.
A política começa precisamente
aí: quando, perante uma situação difícil, é necessário escolher entre as
soluções possíveis e avaliar não apenas a sua legalidade, mas também as suas
consequências.
O protesto pode incomodar,
perturbar a circulação e ultrapassar limites. Ainda assim, por detrás de quem
ocupa uma praça, há pessoas, razões e circunstâncias que não desaparecem
perante uma ordem de desmobilização. O desespero não justifica tudo, mas merece
ser compreendido antes de ser tratado exclusivamente como um problema de ordem
pública.
Pedro Duarte, não lhe solicito
condescendência nem cedências automáticas. Solicito-lhe que olhe para o que aconteceu, sem se limitar a verificar se os procedimentos foram cumpridos. Importa também perceber se houve margem para o diálogo, se as alternativas
foram ponderadas e se a intervenção adotada foi a mais adequada à situação.
Fazer estas perguntas não
significa desautorizar a polícia. Significa reconhecer que a responsabilidade
política não termina quando a autoridade intervém; também exige avaliar o que
poderia ter sido feito de outra maneira.
Mas há outra questão que
gostaria de lhe colocar, e que nasce de quem vive e conhece o Porto.
Quando vou ao centro da
cidade, encontro ruas cheias de turistas, ouço inglês a cada passo e, por
vezes, tenho a sensação de que a voz dos próprios portuenses tornou-se quase
inaudível no meio de tanta transformação. Não tenho nada contra os estrangeiros
que visitam a cidade, nem contra quem escolhe o Porto para viver. A cidade é de
quem a habita, mas também sabe acolher quem chega.
E o problema surge quando, no
meio de tanta atenção dirigida a quem vem de fora, deixamos de perceber quem cá
está, quem sempre cá esteve e quem sente que a cidade onde nasceu já não lhe
pertence da mesma maneira.
O que faz para dar voz aos
portuenses?
O que faz para ouvir os
moradores que enfrentam rendas cada vez mais difíceis de suportar, os
comerciantes que tentam manter a identidade das suas ruas e as pessoas que não
querem ver o Porto transformado apenas num destino turístico? Que espaço têm as
suas preocupações nas decisões políticas? E como se garante que o
desenvolvimento da cidade não acontece à custa de quem lhe dá vida todos os
dias?
Não se trata de escolher entre
portuenses e estrangeiros. Trata-se de não esquecer os primeiros enquanto se
acolhem os segundos. Uma cidade não pode ser apenas o que mostra a quem a
visita; tem de continuar a ser um lugar onde os seus habitantes conseguem
viver, trabalhar, criar raízes e sentir que pertencem.
Talvez estas questões pareçam
diferentes do que aconteceu na Praça D. João I. Para mim, estão ligadas por uma
preocupação comum: como o poder escuta as pessoas, sobretudo quando as suas
inquietações deixam de caber nas respostas habituais.
Não sei se o confronto daquela
madrugada podia ter sido evitado. Seria precipitado afirmá-lo sem conhecer
todos os factos. Mas seria igualmente precipitado concluir que não existia
outra possibilidade.
Por isso, deixo-lhe duas
perguntas: era possível ter terminado aquela madrugada de outra maneira? E faz
o suficiente para que os portuenses continuem a sentir que esta cidade também é
deles?
O Porto não pode ser pensado
apenas para quem o visita, mas também para quem o construiu, nele viveu e
continua a trabalhar. Uma cidade não se mede apenas pelo número de turistas que
recebe, mas também pela forma como trata as pessoas que dela fazem parte.
Escreve-lhe alguém que viveu
quase três décadas no Porto, que hoje reside a escassos dez metros do limite da
cidade e que continua a trabalhar diariamente no interior dela. Dez metros que,
por força de uma fronteira administrativa, parecem suficientes para fazer a
diferença entre ter ou não ter acesso a um passe gratuito.
É também por estas pequenas
grandes contradições que se avalia a atenção que a política dedica à vida
concreta das pessoas. Quem trabalha no Porto contribui para a sua economia e participa diariamente da sua vida; não perde a relação com a cidade por morar do outro lado de uma linha no mapa.
Pedro Duarte, o Porto não é
apenas de quem cá nasceu, de quem cá vive ou de quem o visita. É também de quem
o mantém vivo todos os dias. A questão é saber se as decisões políticas
reconhecem essa realidade — e se estão verdadeiramente ao serviço das pessoas.
Com os melhores cumprimentos,
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